Photo: Egor Myznik

Meu filho,

aquele que não existe,

vem me visitar,

e em noites de coração embriagado,

compartilhamos uma solidão empoeirada.

Da minha velha cadeira

eu o vejo,

num silêncio elevado e

em sombras volantes,

penetrar a minha alma

sem rosto, sem sangue,

apenas a fosforescência

de um abismo insondável.

Meu filho é um tecido de sonho,

ele carrega o divino que habita em nós

e ele diz: “Papai, cadê você?”

Sua voz é um suspiro gelado,

que cresce

lenta e levemente.

Meu filho, meu pequeno,

desperta a minha vontade

de amar com urgência,

eu digo: “Filho, te amo!

Filho, eu te quero bem!”

Mas é tarde,

tornei-me um sonho de carne osso,

e mergulhado em nostalgia

fecho os olhos

e vou do reflexo à reflexão.

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Foto: Ahmad Odeh

Irmão de alma; irmão de poesia

- que conhece minha alegria e

minha alma aberta em ferida -

te busco na minha saudade

e nasço de novo

nesta cidade perdida.

Contemplo, me emociono

quando ouço sua voz voar

pelas ruas cobertas de vapor melancólico,

pelos prédios metálicos sem fim.

Essa cidade perdida,

sem passado e sem futuro,

onde encontro rastros seus

e faço dos seus restos um

quebra-cabeça

pichado nos muros,

eternizado no infinito.

Estamos juntos,

conectados

por nuvens solitárias

num balé estratosférico.

Você vive no entardecer

da minha poesia

nesta cidade perdida,

onde viajo e sou turista

da garganta da tua lembrança,

e respiro aliviado,

purificado,

longe, muito longe

das complexidades da alma humana.

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